Criar uma empresa pode trazer benefícios e abrir portas a diferentes formas de estruturar um investimento. Mas isso não significa que seja, por si só, a melhor solução para todos os investidores ou para todas as fases de um projeto.
Uma decisão deste tipo deve estar alinhada com aquilo que se pretende fazer. Não faz sentido recomendar a criação de uma empresa apenas porque, à partida, parece uma opção mais vantajosa. A estrutura escolhida deve fazer sentido para a estratégia que está a ser construída e, sobretudo, deve existir coerência entre aquilo que se aconselha e aquilo que se faz na prática.
É precisamente a partir desta ideia que podemos olhar para alguns dos benefícios associados às empresas e perceber, através de um exemplo prático, como determinadas decisões podem alterar significativamente a forma como uma operação é estruturada.
Existem benefícios associados às empresas
Existem incentivos e benefícios aplicáveis às empresas. Um dos exemplos abordados está relacionado com a distribuição de lucros e com a possibilidade de evitar a dupla tributação em determinadas situações. A lógica apresentada é simples: quando existe distribuição de lucros entre empresas, o veículo que recebe essa distribuição pode beneficiar da isenção prevista nesse enquadramento, evitando que o mesmo lucro seja novamente tributado nessa fase.
É um tema que surge frequentemente quando se fala de estruturas empresariais e de investimento. Mas perceber a existência destes mecanismos não significa, por si só, que criar uma empresa seja sempre a decisão certa.
Para perceber melhor esta diferença entre aquilo que parece vantajoso e aquilo que efetivamente pode fazer sentido numa determinada estratégia, vale a pena olhar para um caso concreto.
Dois investidores, duas operações imobiliárias
Imaginemos o Nuno e o João. Os dois decidiram criar uma empresa com um objetivo muito específico: fazer operações de revenda de imóveis. Podiam ter escolhido outras formas de estruturar a relação entre ambos, mas chegaram à conclusão de que queriam fazer várias operações no futuro e construir uma dinâmica de investimento em conjunto.
Na empresa existem duas operações em cima da mesa:
- Na primeira, o imóvel foi adquirido por 105 mil euros e vendido alguns meses mais tarde por 120 mil euros.
- Na segunda, o imóvel foi adquirido por 110 mil euros, foram realizados 15 mil euros em obras e, posteriormente, o imóvel foi vendido por 150 mil euros.
São operações diferentes, com valores diferentes, mas permitem perceber uma questão importante: quando se olha para uma empresa e para os resultados das suas operações, não basta olhar apenas para o valor de compra e para o valor de venda, é necessário perceber também o que acontece dentro da própria estrutura
Quando os investidores começam a retirar valor da empresa
É aqui que entram duas decisões tomadas pelos dois investidores. Um deles optou por receber um salário de 850 euros, juntamente com subsídio de refeição. O outro preferiu não receber um salário e optou por uma viatura. À primeira vista, pode parecer que uma das opções é claramente mais vantajosa. Mas é precisamente essa perceção que o exemplo pretende questionar.
No caso do salário, existe não só o valor pago ao trabalhador, mas também os encargos associados. No caso da viatura, existe igualmente um custo para a empresa, sendo referido no exemplo que se trata de um veículo elétrico e que, naquele enquadramento apresentado, não existe tributação autónoma associada à viatura. Quando os valores são colocados lado a lado, a leitura começa a ser diferente.
O que parece ser uma vantagem para quem está a receber determinado benefício pode não representar necessariamente o menor custo para a empresa e é precisamente aqui que está uma das principais conclusões deste exemplo.
O que parece mais vantajoso nem sempre é o que custa menos
Quando se olha apenas para aquilo que cada pessoa recebe, é fácil tirar conclusões precipitadas, mas uma empresa não funciona apenas a partir da perspetiva de quem recebe. É necessário olhar para o custo que cada decisão representa para a própria empresa.
No exemplo apresentado, o custo associado ao salário, subsídio de refeição e encargos é comparado com o custo da viatura. Quando os valores são analisados em conjunto, percebe-se que aquilo que inicialmente poderia parecer uma solução mais interessante não é necessariamente aquilo que representa um menor custo para a empresa.
O exemplo é particularmente relevante porque mostra uma diferença entre a perceção exterior e aquilo que está efetivamente por trás de uma decisão financeira.
Como é referido no próprio contexto da apresentação, aquilo que se vê “na rua” pode não ser exatamente aquilo que está por trás da estrutura.
A importância de olhar para a estrutura como um todo
No investimento, é fácil concentrarmo-nos numa única decisão: criar ou não criar uma empresa, receber através de salário ou de outra forma, optar por determinado benefício ou escolher determinada estrutura. Mas cada uma dessas decisões tem impacto nas restantes.
O caso do Nuno e do João mostra isso mesmo. A empresa foi criada porque os dois tinham uma visão de futuro e queriam realizar várias operações imobiliárias em conjunto. Depois, dentro dessa estrutura, surgem outras decisões que têm de ser analisadas não apenas individualmente, mas também pelo impacto que representam para a empresa. É por isso que a questão não deve ser simplesmente “empresa ou particular?” ou “qual é a melhor forma?”. A pergunta mais importante é perceber o que faz sentido para a estratégia que está a ser construída.
Mais do que criar uma empresa, é preciso saber porquê
Uma empresa pode ter benefícios e pode ser uma ferramenta útil para determinados modelos de investimento. Mas criar uma estrutura apenas porque parece ser mais vantajosa não é suficiente.
O ponto de partida deve ser sempre aquilo que se pretende fazer, a forma como se pretende investir e a estratégia que se quer construir.
Foi precisamente essa a ideia apresentada no início: não faz sentido aconselhar alguém a criar uma, duas ou três empresas, ou a utilizar determinado veículo, se quem está a dar esse conselho não aplica a mesma lógica à sua própria estratégia.
Porque, no final, não é a existência de uma empresa que torna automaticamente uma estratégia melhor. É a forma como essa estrutura é pensada e utilizada dentro do objetivo que se pretende alcançar.
Se tiveres dúvidas já sabes, fala comigo, tenho todo o prazer em ajudar-te!
Um abraço e bons investimentos!
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